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A Arrelia do Quico

Somos todos filhos do Sol e amigos do Ventor

A Arrelia do Quico

Somos todos filhos do Sol e amigos do Ventor

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O Quico continua a observar-nos

Ele eras o mais lindo dos meus amigos. Eras o mais belo companheiro que qualquer pessoa gostaria de ter

 

 

 

 

Hoje tenho outro companheiro, amigo do coração, a que vim a chamar Pilantras.

A tua Dona diz que foste tu e a deusa Bastet que o enviaste para nós. Parece que o nosso amigo Pilantras continua a querer  ser tal  como tu eras.

Eu até acho que foste tu que lhe deste instruções para saber conviver comigo. Em muita coisa são muito parecidos. Pelo menos, tudo indica que sim.

Mas tu adoravas animais e ele não. Nunca me esqueço da tua luta para eu salvar o besouro a afogar na água entre os tronquinhos de banmbu


29.11.03

Apresento-vos o Rafinho


Ventor e Quico

Hoje apresento-vos o Rafinho ...

Este é o meu amigo Rafinho, que o Deus do Ventor já tem em sua guarda, lá na Esfera. Estava quase abandonado numa despensa! Foi a minha dona que teve pena dele e o trouxe para casa. Eu e o Ventor nunca mais vamos ter amigo assim!

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O Rafinho

Quando cheguei cá a casa já o Rafinho era da família. Acho que o Rafinho fez tudo para eu ficar nesta casa. Eu era pequeno mas já era maior do que ele, só que ele estava bem tratado e eu cheguei cheio de fome e quase a morrer. O Rafinho chegava-se a mim e eu levantava a marreca e fungava para me ver livre dele, mas ele não me ligava. À medida que me fui habituando a ele e a ficar com a barriga cheia, comecei a alinhar com ele na paródia.

Deitava-me no meio da sala e quando o Rafinho passava por mim armado em corredor, eu esticava a pata e rasteirava-o. O Ventor ria-se e eu ficava todo contente com estes dois amigos. Eu já brincava com o Ventor e o Ventor na brincadeira, gritava pelo Rafinho a pedir ajuda. Dizia: "Rafinho anda cá depressa"! O Rafinho vinha desde a varanda em correria pela casa fora e quando me preparava para o rasteirar, eu chegava a ter medo dele! O Rafinho saltava e virava-se de repente para mim a fazer um barulho feio e a bater com as patas com tanta força na alcatifa que parecia furioso.

Quando o Ventor abria o correio, ao chegar do trabalho, mandava-me o envelope enrolado para brincar, mas o Rafinho é que brincava. Agarrava o envelope com os dentes mandava-o ao ar e dava-lhe cabeçadas, parecia um puto a jogar futebol. Eu ficava a divertir-me, olhando para ele. O Ventor perguntava-me: "ouve lá brincalhão, tens medo de brincar com o Rafinho? O Rafinho ainda é melhor que o Gomes, olha para aquilo"! Mas eu gostava era de ver o gaijo aos pinotes e à cabeçada ao envelope.

Uma noite, abri a porta da sala mal fechada e fui para lá com o Rafinho e dormimos lá juntos, toda a noite. A mãe da minha dona gritou pelo Ventor que o Quico, se calhar, matou o coelho. E nem foi capaz de entrar na sala! Eu já era grande e tinham medo do meu poder. O Ventor entrou, estava eu a dormir no sofá e o Rafinho por baixo, no chão de alcatifa. O Ventor fez-me muitas festas e ganhei a sua confiança absoluta.

Um dia em Milfontes, o Ventor começou a confiar em mim e deixava-me só a guardar o Rafinho no Quintal para que os outros gatos não lhe fizessem mal. O rafinho ficava só, deitado no meio das ervas, à sombra, e sentia-se um autêntico alentejano na sesta, enquanto o Ventor lia os jornais. Quando o Ventor entrava em casa dizia para eu olhar por ele, mas mal o Ventor se levantava, o Rafinho ia logo a correr atrás dele.

Não confiava que eu lutasse com os outros e os vencesse. Contarei coisas dos meus amigos e esperarei que alguém goste de ler. As pessoas que são más para os bichos não prestam. Eu sei disso!


O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia

25.11.03

Eu sou o Quico


Ventor e Quico

Os rapazes, maus como aqueles que os fizeram, tentaram matar-me à pedrada, com flaubers ou à fisgada. Eu fugia sobre os telhados e escondia-me como podia, mas as forças começaram a faltar e acabei por me deixar apanahar. Dois rapazes, levaram-me para me dar à mãe de um deles, mas ela não me quis.

Levaram-me para me matar, a mim um gatinho pequenino, esfomeado, já com olhos azuis vidrados, como vidros baços. Em boa hora apareceu a "minha madrinha" que ralhou com os rapazes da idade dela e eles disseram que me iam matar porque não queriam ali gatos. Se calhar até me torturariam, mas ela pediu para me levar que ficaria comigo. Os rapazes pensaram e pediram-lhe um euro para ela me levar.

Os pais dela tinham e têm uma cadela, a minha amiga Tara e tiveram medo que ela me fizesse mal e não poderiam ficar comigo. Hoje somos grandes amigos. A "minha madrinha" falou com a tia (agora minha dona), que ficou comigo mas, com medo que o Ventor não me quisesse, iria dar-me para um colega de Fernão Ferro, que queria um gato para substituir o que alguns dias antes lhe tinha sido atropelado na estrada, à porta de casa.

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Quico «Imperador»

Olá, Maralhal!

Pois é! Eu sou um gato pensador mesmo. Viro-me e reviro-me na cama do Ventor e chego sempre à mesma conclusão: «homem sofre»!

Ora se homem sofre, gato, parceiro do homem, nesta passagem terrena, também sofre. Eu sei como custa viver neste mundo inglório. Há uma espécie de ar carregado nesta atmosfera que respiramos. Quando coloco a cabeça fora da janela para ver os meus amigos em cima de telhados zincados ou telhados mesmo de telhas, abarracados sobre paredes distorcidas em madeira, pedra ou chapas, eu vejo uma espécie de pavor que paira nos ares.

Os meus amigos passam fome, dão-lhes cacetada quando descem dos telhados, alguns são escaldados com água a ferver e até o meu amigo "moisés", sofreu muito para conseguir curar as queimaduras que um homem negro lhe fez ao despejar-lhe uma frigideira de azeite ou óleo a ferver em cima. O "moisés" sofreu imenso sobre os telhados e resistiu, mas nunca ficou em condições de prosseguir a sua caminhada neste mundo ingrato para as pessoas e para os animais.

O "moisés" assustou-se muito e perdeu capacidade para lutar pela sobrevivência ao perder as capacidades de comando que tinha conseguido, como líder, no meio do seu Maralhal. O "moisés" era um valente gato preto, um líder, que foi queimado por um homem de cor, por mau íntimo ou, sei lá, por ter horror aos animais que lhe fazem concorrência na luta pela sobrevivência do dia a dia. Nessa luta inglória para o "moisés" pois os animais não são tão manhosos como os homens, estes, na sua maioria são vingativos, injustos e desleais, sem perceberem muitas vezes os princípios da solidariedade que deveria existir entre todos os seres vivos. Neste mundo cruel, o "moisés" foi vencido e morreu precossemente.

Eu, que serei sempre um gato felizardo ao lado do Ventor, já tive também os meus tempos de infortúnio. Abandonaram-me, quando ainda precisava de mamar, sobre os telhados de que vos falo. Queria leite da minha mãe e não tinha, queria comer e não tinha e, quando tinha, não podia!

Sempre que tentava abocanhar qualquer coisa que vinha das janelas dos prédios em frente, os mais velhos vinham e tiravam-ma. Quando todos fugiam eu agarrava-me com as unhas a tudo que me era permitido: paredes de cimento, telhas, madeiras. Muitas vezes, no ímpeto da fuga, caía de costas e quase não tinha forças para me virar. Gritava a todo o Mundo a pedir ajuda, aos meus companheiros de infortúnio e até aos eventuais seres que já foram mas que poderão ter ficado para trás para me levarem com eles para o outro mundo que este, de certeza, não seria o meu.

O Ventor chegou, e como tinha um coelho anão, o meu amigo Rafinho, disse logo que não me poderiam ter cá em casa com o coelho. Mas o Ventor gostou logo de mim, embora, à primeira impressão, eu me fosse esconder por detrás da aparelhagem. O Ventor e eu começamos a conviver mais e dava-me comer, mas dizia que eu ia ser muito grande e daria cabo do Rafinho num instante. Mas eu estava tão magrinho, esfomeado e sem forças que até tinha medo que fosse o Rafinho a comer-me a mim. Mas o Ventor já não me deixou ir embora.

Prosseguirei a narrativa da minha vida!


O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia