... o Senhor da Esfera levou o meu Quico.

 

Faz hoje um mês e doze dias que eu estive, mais uma vez, sós, eu mais ele, nas nossas Montanhas Lindas. Faz hoje um ano que foi mais um dia de tristeza e de sofrimento na minha vida ao perder mais este amiguinho tão lindo.

 

 

Tudo que é vida, nas minhas Montanhas Lindas, tal como em 2006, continua a ser aniquilado, por mãos criminosas ou porque, irresponsavelmente, não têm a noção dos prejuízos de um incêndio

 

Estava com saudades de ficar junto dele por uns momentos, porque eu sei que ele, ali, tal como eu, nunca está só. Quando o enterrei foram as vacas nossas companheiras, no mês passado, só nós dois mais os cavalos. As vacas estavam um pouco mais longe. Mas as rãzinhas das fontes, as lagartixas, o nosso amigo sardão, os gafanhotos, as borboletas, os escaravelhos, e muitos mais, estão sempre perto dele.

 

 

O Sítio do meu Quico, no lado oposto, ao sopé do nosso Fuji-Ama! Dali ele levanta a cabeça e vê tudo. Aposto que me viu em mais uma das minhas caminhadas, rumo à Pedrada e eu, lá de cima, com os olhos pousados nele e nos malditos fogos que continuavam a ameçar as nossas Montanhas Lindas

 

Ainda olhei a nascente à procura das Ninfas que se me mostraram em sonhos mas, olhei o Alto da Derrilheira, lá longe, e tudo que me envolvia pareceu-me gritar em uníssuno: "não Ventor, ainda não estás purificado. És um homem! O Senhor da Esfera diz que podes continuar a sonhar".

 

 

Claro que esta é a minha fonte inesquecível - a primeira fonte dos meus sonhos, da violeta, do Vilavém, da Ribeira, da Redonda, da Cereja, da Nova, da Briosa, do meu pai, da minha mãe, de .... Eles andam todos lá!

 

 Mas eu continuo lá também! Junto deles todos! Todos os dias e noites, acordado ou em sonhos! Olhando os espigueiros de Soajo, o Gião, o Mesio, os montes em volta... A olhar todo o mundo envolvente que me marcou para sempre! Os primeiros passos começaram mais lá por baixo, pela Assureira, por Adrão depois, já mais tarde, por aqui, o meu segundo escalão ao lado de meu pai, da minha mãe de todos e, posteriormente, virei-me para as alturas, rumo à Naia, ao Muranho, ao Alto da Derrilheira, à Pedrada ...

Hoje, como dantes, continuo a caminhar ao lado das "rainhas das montanhas", dos cavalos garranos, de todos!

 

 
Este poldrinho ao ver-me junto do Quico, depois da sua mãe mo apresentar, disse-me: "sabes Ventor? A minha mãe já me disse tudo! Já me disse que um dia iria ficar sem ela e, por isso, teria de aprender tudo e, quanto mais depressa melhor! Achas que eu vou chorar tanto por ela como tu choras pelo teu Quico?
Claro que eu não lhe poderia dizer que sim nem que não. Só ele, um dia, teria de ser capaz de avaliar!
 
Estarei, tal como quando eras vivo, sempre junto de ti, Quiquinho.


O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia


publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 15:26