Mais uma história do Ventor, tal como ele ma contou. Será desenvolvida mais tarde, no meu Site.

«O filho do lobo era um cão muito parecido com o lobo e que tinha por dono um tio meu. Esse meu tio, por afinidade, que andou sempre aqui pela região de Lisboa, mais precisamente, na área de Sintra, como todos os que chegam à idade da reforma, pensou em ir para a terra e arranjar entretimento.

Um dia, na minha caminhada pelas minhas Montanhas Lindas, fui encontrá-lo num local a que chamamos As Fontes (nascente de água divina), sentado à sombra de uma árvore, com três cães e as suas cabras, à custa das quais ele continuava a subir montanhas e a tentar manter-se activo.

Ao olhar o cão, estranhei-o e perguntei-lhe onde o arranjou. Ele disse-me que aquele cão era fora de série e que era filho do lobo. Era filho do lobo e de uma cadela doméstica que andara aos cães e acasalou com o lobo nas montanhas. Gostou do cachorro, que logo desde pequeno se notava a sua procedência e pediu-o ao dono da cadela que prontamente lho ofereceu. Era um cão bem mandado e adoptara as cabras como suas companheiras.

 

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Montes das Fontes

 

Como demonstração, da sua superioridade, ele mandou dois pedaços de pão para o meio dos cães e todos acorreram para apanhá-lo, mas ele deixou que fossem os outros dois a pegar o pão. Ele acorreu apenas com um ligeiro movimento e a visão a controlá-lo e a ver os outros pegá-lo, praticamente, não se mexeu! Voltou a fazer a experiência e o cão lobo voltou a seguir o pão com os olhos e a deixar que fossem os outros a pegá-lo. Por fim, agarrou num bocado de pão e deu-o ao cão lobo que o pegou e comeu-o. Ele apenas pegava o comer quando o dono dizia que era para ele!

 Ora eu, que percebo alguma coisa de cães e nada de lobos, pressupunha o contrário de tudo o que observava ali com um animal 50% lobo. Ele na forma, não no tamanho, era um autêntico lobo. Só vi aquele animal duas vezes mas nunca mais o esqueci. Só que as coisas nem sempre são como nós gostaríamos que fossem! O meu tio morreu, as cabras ficaram sós e o filho, meu primo, vendeu-as. Os cães ficaram ao abandono lá pela Assureira local ainda afastado da aldeia e, não querendo ligar às outras pessoas iam comendo como podiam. Talvez apanhassem coelhos, mas a verdade é que não foram adoptados por ninguém.

 

Numa determinada altura começaram a ser mortas ovelhas e toda a gente foi levada a pensar que aquele trabalho só poderia ser levado a cabo pelo “filho do lobo”, uma vez que os lobos não eram vistos em lado nenhum. Dera-os Deus! O meu primo ou qualquer outra pessoa, convencidos que, certamente, o filho do lobo, seria o cão assassino, mataram-no a tiro, sem direito a ser julgado, é caso para dizer, pois ninguém viu o filho do lobo a matar qualquer animal e quando o viam apenas dava ao rabo a cumprimentar as pessoas que chegavam. Este cão era tão submisso que, quando estava junto do dono, com os outros, andava sempre com o rabo entre as pernas. Ele adoptou o dono como chefe do grupo e os outros como companheiros que o receberam no grupo! Era, socialmente, um lobo autêntico.

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 Um lobo

 

Depois de matarem o “filho do lobo”, as ovelhas continuaram a ser mortas e, alguém viu que andavam por ali cães que não eram da terra e que eram cães e não lobos. Os homens julgaram-nos à revelia e mataram-nos! Nunca mais houve, ovelhas mortas por aqueles lados e todos ficaram a saber que não foi o “filho do lobo” que, de lobo cão ou cão lobo, fiel e submisso, pensaram, se tinha tornado num cão lobo assassino!

 

 Este cão lobo, filho inocente deste mundo, foi morto por gente pouco dada a investigar e sempre pronta a esmagar qualquer animal que se desvie um milímetro fora do trajecto sem o aval do dono. Donos ou não, habituados a pensar e actuar friamente, como animais irracionais, sem fazerem um julgamento claro e justo como mandaria o bom senso. Assim, já vão alguns anos, na minha caminhada pela minha terra, também vejo como a injustiça se sobrepõe à justiça, tal como em qualquer canto do mundo isso acontece, com os homens e, mais ainda, com os animais».



O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia


publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 15:24