Como o Ventor diz nas suas caminhadas, a cegonha é uma beleza e lá no norte de Moçambique foram suas companheiras de guerra. Elas caminhavam pelos carreiros em volta da pista de Vila Cabral e pelos charcos de águas estagnadas das chuvas onde se alimentavam. O Ventor já contou por aqui a beleza incomparável da sua menina albi-negra por lá teve e até dançava com ela e tudo.

Aquela cegonha que o Goldfinguer, o pastor alemão, ia retirar da pista para os aviões poderem aterrar sem magoar a bicha.

 

 

Os aviões comunicam do ar: «Ventor, Catataus? Pede ao Gold para ir tirar a cegonha da pista»!

E ele pedia! «Gold, vai buscar a menina à pista»! Ele ia a correr, ladrava-lhe e ela ia atrás dele a tocar castanholas. O Gold quase se deixava agarrar pela cegonha para a incentivar a correr atrás dele para fora da pista. Ela tinha as rémiges de uma asa danificadas e foram tratadas pelo enfermeiro da Força Aérea, o mesmo que tratava do Ventor e dos outros e diz o Ventor que tratou a cegonha melhor que o trataria a ele se tivesse sido necessário.

 

 

É a tal cegonha que o Ventor foi arrancar a um grupo de pretos que a levavam para fazer uma sopa, mas ele não deixou. Vocês nem queiram saber o ímpeto com que o Ventor sacou a cegonha aos pretos que ficaram parvos, com o branco dos olhos regalados a olhar para ele e nem tiveram coragem de ir atrás dele com a cegonha ao colo. Tiveram vontade mas não tiveram coragem!

 

 

Hoje, quando o Ventor entra no Alentejo e vê as cegonhas, é também obrigado a rever todo o filme do convívio que teve com aquela menina albi-negra que era o regalo dos seus olhos quando ela fazia treino com as suas asas em cima do bidão de gasolina cheio de terra para os proteger de algum ataque que viesse a dar-se. Sobre o bidão ela dava às asas e o Ventor fazia-lhe festas na cabeça, no pescoço e verificava se as suas rémiges melhoravam e ela olhava pacificamente a sua mão acariciadora. Ele dizia-lhe que ainda ia chegar à Europa primeiro que ele, que podia estabelecer-se entre a boa gente alentejana e que podia levar mensagens especiais do Ventor para todo o Alentejo. Entretanto ela olhava-o!

 

 

Como vocês sabem, as cegonhas, na sua generalidade, têm o seu quartel de Inverno por toda a África verde que vai desde a zona da Guiné até ao sul do Egipto, com uma linha curvada para sul, fazendo uma reentrância mais para sul no núcleo central da África pelo sul do Sael até próximo do Norte do Congo.

 

 

As cegonhas da África Oriental sobrevoam o Egipto e dirigem-se para o Mediterrâneo passando depois sobre a Península Arábica rumo à Turquia, voando as outras sobre os desertos saarianos rumo ao norte de África e depois sobre o Mediterrâneo para Itália, Península Ibériça e Europa Central. O outro quartel de Inverno é instalado sobre as florestas indianas e indochinesas até à indonésia e estabelecem o quartel de verão para Norte do Paquistão, no Japão e na zona chinesa oposta ao Japão.

 

 

A cegonha preta que parece correr maior perigo de extinção que a cegonha branca, ocupa as mesmas zonas de Inverno que a cegonha branca, mas no verão ela regressa à Europa central e espalha-se por toda a zona central da Ásia até á China. É mais bravia que a cegonha branca e apenas na Transcaucásia faz ninho próximo das habitações humanas.

 

 

As cegonhas são arautos da Primavera e vêm nidificar em velhas construções dos homens ou criam autênticas aldeias em árvores em locais junto de zonas baixas onde os lodaçais e terras pantanosas lhes proporcionam alimento. Tal como as andorinhas e outras aves, elas vão e vêm!

 

 

Dizem os especialistas que os machos podem ser os primeiros a chegar e as fêmeas chegam alguns dias mais tarde e vão ter com o seu parceiro. Será mesmo assim? Nós sabemos que o Pedro Nunes era de uma terra onde as cegonhas se dão bem, Alcácer do Sal, mas daí a elas usarem o nónio antes … bem! A verdade é que consta que eles ficam separados lá pelos quartéis de Inverno, mas não sei se têm CU (cartão Único), num chip para se controlarem no destino da futura chegada!

 

 

Também me dizem que a casa de campo que o casal volta a ocupar na Primavera, pode estar destruída parcialmente ou na totalidade pelos vendavais das invernias, mas os casais deitam bico à obra e reconstroem a casota do ano anterior, que voltam a refazer em cerca de 10 dias e parece não ser tarefa fácil! Um ninho de cegonha pesa cerca de 50 kg!

 

 

Depois da reconstrução, passam ao cerimonial que as levam à procriação. Derretem-se todas e acham que valeu a pena a trabalheira da reconstrução da sua velha palhota!

Mas não é só reconstruir! As cegonhas travam terríveis lutas pela recuperação dos seus ninhos! Como calculam elas não possuem caderneta predial e registo de propriedade e isso leva a zaragatas esgotantes e sangrentas. O Ventor sabe como é a castanhola do bico da cegonha! Fico por aqui. Também não se pode falar em tudo de uma só vez, senão acabam-se os blogs.

 

 

Digam lá que as cegonhas não são umas belezas!



O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia


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publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 01:44