Olá, Quico!

Eu sou uma garça da campina ribatejana habituada a acompanhar as vacas e os touros que por ali pastam. Eu, como todas as garças boieiras, aproveitamos fazer uma limpeza às vacas e bois que pastam nestas belas lezírias, e tive uma predilecção especial por uma coisa linda que vi nascer e a que chamei: o Bezerrinho! É esta a história que te vou contar para tu contares, ao mundo, no teu blog.

 


A Garça Kitty que caminha pelo vale do Tejo

 

Eu vi crescer e brincar este bezerrinho então protegido por Apolo o nosso amigo e também grande amigo do Ventor. Certamente que o Ventor já te falou daquelas vacas que pastam pelas suas serranias do Norte. Essas são diferentes destas do Ribatejo. Segundo o Ventor até são mais bonitas e certamente, pelo menos, enquanto vivem, mais felizes! Então foi assim, Quico:

 

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Qualquer cantinho pode ser tão lindo

 

«Um dia, na planície Ribatejana, nasceu um bezerrinho. Era filho de uma vaca que, em homenagem àquela vaquinha do leite que tu já terás visto pelas TV's, chamavam Mimosa. Esse bezerrinho, era muito mansinho e gostava muito dos seus donos que lhe pegaram ao colo quando nasceu. Mas era um bezerro espevitado e cheio de força.

 

Quando chegou a altura, os seus donos acharam por bem, apartá-lo da manada. Sabes porquê, Quico? Os donos desse bezerrinho acharam que ele iria valer muito dinheiro, se fosse preparado para se tornar num touro bravo. Daqueles que se vendem para serem toureados por um macambúzio a que as pessoas chamam de toureiro. Toureiro a cavalo ou a pé. Daqueles que aparecem nas praças a contar histórias deste género do vila-franquense. "De onde é você amigo? Eu? Eu sou de Vila Franca de Xira, terra de touros e toureiros! Então o senhor é toureiro? Não sou, não senhor"! Pois!

…

Esse bezerrinho, foi colocado numa propriedade, junto com outros, cercada de arame farpado. Eu gostava tanto dele que segui pelo ar o carro que o levou! Depois fiquei por ali, no meio deles e ia-lhe tirando as carraças a todos que gostavam tanto de mim que passaram a chamar-me Kitty! Todos os dias entravam lá uns homens a cavalo para espicaçá-los a ele e aos seus companheiros, com uns paus compridos, uma escumalha que se dizem dignitários de representar uma classe tradicional a que chamam campinos.

 

Ao meu querido Bezerrinho puseram o nome de Bernardo e treinavam-no para se tornar no pior touro da Planície Ribatejana. Mas o Bernardo era muito mansinho. Já tinha andado ao colo dos donos e já lhe tinham dado leite com biberão e tudo e, por ser mansinho, não sabia porque os humanos lhe queriam tanto mal.

 

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Era num campo assim que o Bernardo e os outros eram torturados para os fazer os piores touros do Ribatejo

 

Muitas vezes chorei ao ver aqueles já belos touros serem tão mal tratados. Tu nem imaginas como sofrem Quico, e nem te passará pela cabeça imaginares ver uma garça a chorar pelos males que os homens provocavam naquele belo touro que tinha sido para mim, o meu menino.

Mas tudo acaba! Um dia, o Bernardo, ainda muito jovem, mas já farto da vida, estava um pouco afastado, mais em cima, num outeiro, com os olhos cravados no horizonte, a remoer os comeres da campina ribatejana e a remoer também, pensando, qual a razão porque aqueles animais de duas patas lhe queriam tanto mal.

 

Ao mesmo tempo que remoía, viu mais uma vez, os homens a mal tratarem os seus companheiros um pouco mais abaixo. Ele olhou-os, um pouco mais velhos que ele, com mais força que ele e a serem espezinhados por três reles animais de duas patas montados em cavalos. Começou a pensar na vida. Na sua dona que lhe pegou ao colo e no seu dono que tanto o acarinhou quando ele ainda não imaginava o mundo que o esperava.

Olhou-me e pediu-me para lhe tirar mais uma carraça que tinha na orelha! Disse-me obrigado Kitty e começou a descer o outeiro. Então viu, tal como eu, um homem a cavalo a espetar um grande ferrão num dos seus amigos e este lançar um grande berro que denunciava tortura!

O Bernardo emproou-se, e continuou a descer o outeiro! Fixou o olhar já turvo no homem que tão mal tratou o seu amigo e, lentamente, foi descendo. Ao aproximar-se, ouviu aquela figura de homem dizer: "desce, desce, que aqui quero eu apanhar-te"!

 

Aquele que tinha sido um bezerrinho, um belo tourinho, era agora um grande touro, cheio de força e de vontade de terminar a má vida que levara desde que chegou ali. Continuou a descer e a aproximar-se. Toda eu tremia, Quico! As minhas penas branquinhas pareciam uma floresta a ser vassourada por um grande tremor de terra. Já adivinhava o que ia acontecer. O Bernardo, olhou o cavalo que estava debaixo daquele monstro de duas patas e começou a magicar sozinho. Desculpa, amigo, mas estou decidido! Para derrubar esse monstro que tens em cima, tenho de te atacar a ti!

O Bernardo, pediu ao Senhor da Esfera e ao Ventor, para não lhe levarem a mal. Ao Senhor da Esfera porque sabia que já não tinha mais faces para dar e ao Ventor porque sabia que ele gostaria que poupasse o cavalo! Mas o Bernardo já não podia. A sua paciência tinha chegado ao fim depois de ouvir os seus companheiros berrar tanto. Foi-se chegando ao cavalo e ao cavaleiro com aquele pau comprido, em jeito, para lho enfiar nas costelas, mas o Bernardo não quis saber do pau. De repente, dirigiu-se com uma grande fúria e determinação contra o cavalo e derrubou-o! Nem o cavalo, nem o cavaleiro esperavam tal ímpeto!

O Bernardo olhou o cavalo por terra e ainda teve tempo para pedir-lhe desculpa, mas investiu a sua fúria contra o cavaleiro que estava no chão, caído de costas! Avançou para ele e espetou-lhe um corno numa virilha ao ponto de levantá-lo no ar. Ao mesmo tempo que o humano subia no ar, em volta, o cheiro era nauseabundo. Os seus intestinos foram esventrados! O Bernardo sentiu que a sua missão na vida estava cumprida! Verificou que o cavalo, seu companheiro de caminhada, apenas ficara contundido mas o esterco humano foi abanado para sempre.

 

O Bernardo, no seu ímpeto, saltou a cerca de arame, para uma estrada que a envolvia, mas nesse instante um camião TIR que circulava, não teve tempo para travar e apanhou o Bernardo que foi esmagado por aquela força bruta. O Bernardo ainda teve tempo para, antes de dar o suspiro final, me dizer:

"Kitty, pede desculpa ao Ventor pelo atropelo ao cavalo e comunica-lhe a alegria que eu senti de ter destruído aquela amostra de homem possuído pelo Satã"! Ao mesmo tempo dizia-me: "diz ao Ventor que não morro como o Lumi na luta com os leões, nas margens do rio Lugenda, mas morro feliz na luta contra essas feras de duas patas"! Ao revirar o branco dos seus olhos para mim, ainda ouvi ele dizer-me para sair dali e ir para junto da sua mãe e dizer adeus aos seus amigos. Adeus, Ventor, foram as últimas palavras que lhe ouvi na linguagem que só nós entendemos, e eu já não podia ver ali aquele que tinha sido o meu bezerrinho, estendido. Levantei voo e fui levar a má nova à sua mãe»!

 

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A sua mãe triste chorou muito por aquele que tinha sido o seu menino

 

Tudo isto por culpa dos homens, Quico! Da sua má índole, da sua ganância, da sua mania de quererem ser ricos à custa dos outros animais! É um bicho que não sabe viver com dignidade, Quico! Olha, o Ventor que não te deixe ganhar carraças! Mas contigo escuso de me chatear. Tu não sais de casa! Um dia destes vi o Ventor pela minha zona e perguntei-lhe se sempre era verdade que te podia escrever. Ele disse que sim e cá estou eu. Um toque d'asa e uma bicadinha da amiga Kitty!



O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia


publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 22:22