Já aqui vos tinha falado do meu amigo Branquinho. Ele era um gato fora de série. Tinha de vos contar, um dia, a história deste gato maravilha, nosso amigo.

Tinha-vos contado a história dos seus últimos tempos, em 10 de Junho, mas agora vou contar-vos tudo o que sei da sua història anterior. É a história que o Ventor me tem contado, e a algumas das passagens eu assisti do meu miradouro.

Um dia, anos atrás, apareceu aqui um gatinho branco que, tal como eu, ou nasceu por aí, ou foi abandonado num mundo que mais parece um antro de bestas. O Branquinho na tristeza da sua vida, foi um herói. Um dia o Ventor ia a passar junto às barracas e encontrou uma senhora com um gatinho ao colo que lhe disse: «Olhe, meu menino, o meu gatinho»!

 

 

Tu tinhas a pose de um rei

 

O Ventor olhou e viu um gatinho quase todo branco muito lindo a fitá-lo, olhos nos olhos, mas a vida é muitas vezes madrasta para pessoas e animais. O gatinho branco fez dessa barraca a sua casa e dessa senhora a sua dona. A vida começou a correr mal à sua dona e o gatinho começou a fazer pela sua vida. Ele ia à dona, visitá-la e fazer-lhe festas, dando-lhe  marradinhas, único consolo que servia os dois. Quando o dono da minha amiga Tara levava comer aos gatos da rua, ele lá estava no meio deles a fazer pela vida, e durante anos, foi passando quase despercebido, fazendo apenas parte do grupo como um todo. Ninguém falava do Branquinho, deste ou daquele - eram os gatos! Houve uma fase do Eusébio e, depois, outra do Branquinho

 

 

Conhecias os teus amigos à dsitância

 

Um dia, o dono da minha amiga Tara, viu uma algazarra e ralhou com o Branquinho porque estava a bater noutro por causa do comer. O Branquinho levou-lhe a mal, veio atrás dele, à sucapa, agarrou-se-lhe a uma mão e deu-lhe uma dentada. A história não passou disso e ficaram amigos como dantes. O branquinho era o chefe do grupo e quiz impor-se a todos e mesmo a quem lhe dava de comer.

 

Quando a Câmara correu com as pessoas que moravam nas barracas e deitou as barracas abaixo, a chamada dona do Branquinho, muito doente, de "pirolitos entornados", nem queria saber dela, quanto mais do Branquinho e foi na onda. A sua barraca foi deitada abaixo como todas as outras e o Branquinho fez do local da barraca o seu mundo. Deitava-se no chão a pensar na vida e porque seria que a sua dona e a sua casa desapareceram.

 

 

Tinhas o teu mundo e não aceitavas outro. Marcaste o teu território

 

Felizmente, o Branquinho, como todos os outros tiveram sempre comer e o Branquinho era o grande chefe que impunha a ordem e o respeito nos gatos da rua. Ele batia em todos que não lhe obedeciam. Desde que ficaram sem as barracas para se apoiarem, começaram a morrer na rua atropelados. O próprio Branquinho apareceu incapacitado de andar e esteve muito doente. Mas mesmo assim, nunca perdeu o seu estatuto de chefe, perante a sua comunidade. A minha dona e o Ventor deram-lhe um tratamento preferencial, devido à sua doença. Tinha sempre água limpa e comer do melhor e acabou por recuperar. Quando estava doente, incapacitado, os outros gatos olhavam-no e afastavam-se dele cheios de medo. Bastava olhá-lo! Ele tinha ganho o estatuto de chefe!

 

Um dia, um cinzento, viu-o estendido no chão junto às pernas do Ventor sentado num banco, e aproximou-se. O Branquinho fitou-o, olhos nos olhos, sem se levantar e o outro parecia que foi movido por um motor chamado medo. Desapareceu, sem mais, a alta velocidade. A outros, o Branquinho voltou a ganhar-lhes na corrida e o Ventor começou a ficar contente. Ele resistira!

 

 

Enquanto a doença não  te atingiu eras feliz

 

Mas um azar nunca vem só e ele panhou uma doença. Constipou-se e ...pronto!

Hoje foi um dia muito triste para mim, para o Ventor e para a minha dona.

O meu amigo Branquinho, o gato branco que o Ventor e a minha dona protegiam, apareceu morto. Faltava desde 6ª feira à noite, a última vez que apareceu e que a minha dona lhe foi levar comer. Os outros tiveram sempre o seu comer, todas as noites e o Branquinho era tratado como um Lorde à parte, mas para impor a sua autoridade de chefia ia ter com os outros sempre.

 

Mesmo quando o Ventor e a minha dona saíam e andaram por fora, eles deixavam sempre alguém para tratar dele. Alguém que vinha cá a casa buscar o comer e a água durante o dia e lhe levava, ficando eu e a minha "avó" como observadores a partir do meu miradouro. Ele estava sempre debaixo da nossa varanda, olhava para cima e conversávamos. Às vezes ficava um ou dois dias sem aparecer, se calhar ia às gatas, mas desta vez as gatas dele foram outras.

Ontem o Ventor veio da festa de anos do Tomás, já tarde, e viu um gato branco no meio do jardim. Foi a correr lá mas viu que não era ele. Hoje de manhã foi buscar o carro para ir a Massamá e viu uma coisa branca no meio das ervas. Desceu lá e viu o seu amigo assim:

 

 

 

Tombaste para sempre, no chão do medo, só, mas livre, meu amigo Branquinho, deixando para trás muita gente triste

 

O Ventor nunca esquecerá, como tu eras lindo e agradecias com as tuas marradinhas, o comer que te davam. Ele diz que nunca conheceu um gato de rua como tu. Nem eu!

Há poucos dias a minha dona foi-lhe dar de comer e o Ventor foi atrás dela e ao chegar ao jardim ia a minha dona à frente e o Branquinho atrás dela, rabo levantado, paço estugado, mas ele olhou para o lado e viu o Ventor. Deixou a minha dona, desviou-se para ir receber o Ventor e deu-lhe muitas marradinhas nas pernas a agradecer-lhe, sempre a miar. Isto porque o Ventor ia à varanda e indicava-lhe que o comer dele ia a caminho. Era um gato muito agradecido. Agradecia tudo que as pessoas lhe ofereciam.

 

Outra vez, no princípio, quando apareceu aleijado da coluna, a minha dona apalpou-lhe a coluna devagarinho e ele deu-lhe uma dentada e fugiu para debaixo dos carros. Ela veio para casa desinfectar a mão e, depois, o Ventor foi com ela à procura dele. A minha dona chamava-o e ele não aparecia. O Ventor deu com ele debaixo de um carro, conversou com ele e ele veio, mas olhava para a minha dona com medo dela. Depois, ao ver que ela não lhe ia fazer mal, fez-lhe tantas festas, pediu-lhe tantas desculpas, parecia uma pessoa.

Adeus Branquinho. O Senhor da Esfera também vai tomar conta de ti.



O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia


publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 22:02