Há dias, estava junto ao Miradouro do Quico e não via os meus amigos Pingas. Fui buscar a máquina para tentar espreitar melhor através dela. Depois, fui observando pessoas sobre a ponte e entre elas, alguém dava comer aos meus amigos penudos, entre eles, os Pingas. Eu não tirei fotos porque, apenas via dois pescoços levantados e eram, sem dúvida os pescoços dos pingas, os meus amigos cisnes.

 

 

O meu amigo Pingas está a conhecer a tristeza da solidão. Sem as rémiges vai ter muitas dificuldades em subir a rampa onde apanha sol

 

Nos dias seguintes comecei a ver apenas um cisne e, pela sua pose, só podia ser o meu amigo Pingas. Hoje de manhã, levantei-me e fui observar os meus amigos e vi, por entre os arbustos, dois penudos brancos e um, tinha a certeza tratar-se de um Pingas mas, o outro estava escondido pelo verde de um arbusto de onde apenas via que a ave era branca. Calculei que eram eles os dois. Tive de ir a Lisboa e, no regresso, peguei na máquina e fui à procura dos Pingas e tentar saber onde eles tinham o ninho. Julguei que só via um porque a minha linda Pingas, estaria no ninho e hoje apareceu para conversar ao sol matinal, com o seu companheiro.

 

 

Este pato branco, foi o pato da confusão hoje de manhã. Era ele que estava, ao lado do Pingas, coberto pelo arbusto

 

Infelizmente, só vi o meu amigo, que se apressou a aproximar-se de mim a dar ao rabinho como sempre faz. Mas num destes dias, tinha visto o Pingas fazer um voo, aparentemente sem motivos pelo rio acima. Espreitei e nada da sua companheira de caminhadas. Preparava-me para ir à procura dela que, julgava eu, estaria entre os arbustos, num ninho improvisado mas, vi os guardas do jardim e dirigi-me a eles. Que é da cisne. Já tem ninho?

A resposta foi: "a cisne morreu um dia destes, de doença e velhice".

Fiquei muito triste por ter perdido esta amiguinha e ficarei triste por muito tempo porque vi nascer dela os seus filhotes, vi-os crescer, vi-os desaparecer e foi assim que soube que, ou fugiram, ou morreram. A filhota mais jovem deles mataram-na a chocar os ovos!

 

Agora, só terei por algum tempo o meu amigo Pingas, um verdadeiro amigo que sempre olhou com simpatia para o Ventor.

 

 

Um esquadrão de patos mudos vieram cumprimentar o Ventor

 

"Estou triste Ventor! Fiquei só! Queria fugir daqui, mas não me deixaram. Cortaram-me as rémiges! Se calhar foi melhor, pois já estou velho para fazer uma última caminhada para junto da minha gente. A regra dos cisnes é correr com os filhotes quando atingem um ano. Mandá-los para o mundo, deixá-los ir conhecer mundo. Mas todos eles se agarravam às penas da mãe e nenhum partiu de livre vontade. A minha vida tem sido uma tristeza e agora será mais que nunca, sem a minha companheira"!

 

«Como tu dizes, Ventor, estamos sempre a aprender, mas quando chegamos a saber alguma coisa, já é tarde de mais. Se o arrependimento fosse um estado psíquico dos cisnes, hoje choraria pelos meus filhos mas, como sabes, isso não existe entre nós. Por isso, chorarei até ao fim da minha vida pela minha companheira que foi a primeira a partir. Se fosse como tu dizes, Ventor, ela estará à minha espera e, se calhar, já encontrou o Quico. Se fôr assim Ventor, ainda nos vamos encontrar, junto a um lago de sonhos, onde eu e a madame Pingas, dançaremos para ti enquanto tu paras de tirar-nos fotos, caminhando em redor desse lago azul, com o Quico a teu lado, com o rabo no ar a observar-nos e aos meus filhotes enquanto os anjos tocarão as suas trombetas anunciando a todos nós que estamos no reino do Senhor da Esfera».

 

 

Este pato disse-me que disse ao Tobias para me informar da desgraça que atingiu os nossos amigos Pingas e que o Tobias lhe disse que não dizia nada ao Ventor para não o ver triste

 

O Pingas está por ali com as rémiges cortadas para não perder a cabeça e levantar voo, rumo ao desconhecido. Tal como a sua companheira morrerá entre os homens, entre os quais ainda tem alguns amigos mas, ele e eu, sabemos que também tem inimigos, como aqueles que o tiraram do seu local preferido para colocar lá uns cisnes de plástico, no seu lugar, para os quais ninguém liga a não ser, segundo me dizem, alguns noivos parolos que outros parolos incentivam a tirar lá umas fotos no dia do seu casamento. Quanto não valeriam umas fotos de qualquer casório com um cisne verdadeiro de cada lado, branquinhos como os vestidos das noivas.

 

 

A galinha d'água, uma descendente de Isabelinha, perguntou ao Ventor se a madame Pingas sempre terá ido para junto do Quico

 

De todos os cisnes que nasceram na Amadora, só resta o pai Pingas. Continuo a dizer-vos que eles foram as únicas coisas boas da Amadora, vista como cidade. Abriram uns jardins com dinheiros vindos sei lá de onde e alguém teve a boa ideia de colocar um casal de cisnes no Parque Central que eram uma festa para a pequenada e seus avós. Depois apareceram os desperdícios da política engalanada para os tirarem de lá, na mira de um negócio falido e colocá-los aqui num riacho a que chamam Falagueira.

Que pouca sorte vocês tiveram Pingas, com gente que não sabe fazer nada e eu que julgava que a pouca sorte era só nossa!



O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia


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publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 19:07