São isso mesmo!

São, de facto, os nossos grandes amigos.

São incomparáveis!

São tão diferentes de nós!

São os companheiros da amizade!

 

Eles, todos os seres vivos que caminham a nosso lado, são instintivos, são companheiros, são camaradas, e são muito melhor que nós!

Eles não fabricam armas para matar os seus companheiros de caminhada! Podem, instintivamente, em sua defesa ou em defesa do seu espaço, da sua sobrevivência, tomar a atitude instintiva de defesa da sua vida. Mas são limpos na luta! Não fabricam armas!

 

E, até morrem por nós!

Foi o que aconteceu ao Gaspar, este belo animal.

 

 

Eras tão lindo, Gaspar, e tão feliz! Todos vamos ficar com saudades tuas e nunca te esqueceremos

 

Insistiu em acompanhar os donos. Eles levaram-no para trás e prenderam-no, para ficar sossegado, até à sua chegada.

Mas o Gaspar era um cão e queria mais. Queria acompanhar os donos que o adoravam e ele a eles. Forçou o sistema de prisão e deu-lhe para tomar uma atitude diferente. Ir atrás deles!

(O Quico era o contrário! Se lhe cheirava que eu o levaria para qualquer lado, procurava um lugar seguro. Bastava eu dizer: "onde está o gato"? Ele ouvia e sumia!).

 

Por isso, o Gaspar pensou: "Se o carro foi por ali, se vai sempre por ali, será lógico que, se eu for por ali,  vou encontrá-los. Quando vou com eles, também é por ali que eu vou"!

 

Mas, o que o Gaspar não sabia era que este mundo já não é para eles. É apenas para o homem! Fazem-se as grandes estradas e os grandes bólides e já nada é como no tempo em que os animais se safavam instintivamente de outras ciladas.

Por isso, desta vez, tudo correu mal ao Gaspar.

 

Um dia, encontrei um cão, um cão perdigueiro, preso junto do galinheiro, ao lado das suas companheiras de todos os dias - galinhas. Ele estava preso e não passaria de um objecto a que davam de comer!

Não sei se o Gaspar era ou não mal tratado, mas sei que não era um cão feliz, quando  estava aprisionado.

A sua amiga que chegava de Lisboa para ver as obras do seu novo mundo, Lugar ao Sol, não gostava nada de ver o Gaspar aprisionado. Via-o junto das galinhas e ia lá fazer-lhe festas. Um dia atreveu-se a pedir aos seus donos que lhe dessem o Gaspar. Afinal ele não lhes servia para nada!

 

Conversa daqui, conversa dali, eles vendiam-lhe o Gaspar, mas ela disse-lhes que o amor não se compra nem se vende! Eles, aqueles novos vizinhos, resolveram oferecer-lhes o Gaspar! Então, o Gaspar passou a ter um tratamento VIP!

 

 

A Dona do Gaspar e o Gaspar acreditam que a amizade nunca morre

 

Um dia, fiquei a saber que o Gaspar iria ter novos donos. Cheguei lá e lá estava tudo para o Gaspar! A sua casota nova, um autêntico palácio! Duas divisões! De uma lado para comer e beber, do outro, para dormir e descansar, de dia porque, de noite, ficava em casa com os seus donos, os seus amigos.

Mas o Gaspar, para além da sua casota nova, passou a ser tratado como um Príncipe! Ele fazia parte das coisas mais lindas que os seus donos tinham! Ele passou a ser o guardião de seus donos, do novo Rafinho branco, das Chinchilas, dos gatos e especialmente do Gil, dos Bicos de Lacre, das tartarugas e de todos que entravam no Lugar do Sol!

 

Sempre que eu lá ia, havia uma conversa entre eu e o Gaspar. Mas, o Gaspar não conseguia adaptar-se à minha presença. Há quarta vez senti que ele estava diferente e mais uma vez, eu e o Gaspar, caminhamos sobre o muro em volta da casa, conversando.

O Gaspar deixou-me fazer festas na sua cabeça e pediu-me para não chorar tanto pelo meu Quico.

 

Ele gostava muito do Gil e disse-me que ainda viríamos a ser grandes amigos mas, agora, os seus donos eram a sua prioridade!

Ele, no sábado, 3 de Outubro, pela noite dentro, deu voltas ao meu carro, despedindo-se com carinho. Mas ontem, dia 4 de Outubro, dia de S. Francisco, o Gaspar, escolheu mal a sua caminhada! Ele partiu atrás dos seus donos, mas o azar acompanhou-o. Atropelado com a coluna partida, foi levado para o Veterinário, onde ainda lambeu as mãos aos seus donos, pela última vez, e morreu!

 

Já não me chegava chorar pelo meu Quico e não consigo deixar de chorar pelo Gaspar e pelos seus donos, pois tenho a certeza que se adoravam e agora também vivem na tristeza.

 

Eles, agora, só têm o palácio do Gaspar, as camas do Gaspar, tudo que era dele e, até um roupão azul lhe tinham comprado. Quando o Gaspar tomava banho, já tinha um roupão para vestir!

 

Estava aqui, ao telefone, a falar com o meu amigo Luis, em Paris, a falarmos dos nossos tempos pelas nossas Montanhas Lindas e o Gaspar estava a morrer atropelado quando caminhava por uma estrada, trepando à procura de seus novos donos.

 

Descansa em paz, Gaspar. Quem me dera que tu e o meu Quico ficassem juntos um do outro. Vou pedir a S. Francisco.



O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia


publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 01:35