Vou contar-vos mais um sonho do Ventor.

 

Reparem como o Ventor continua a caminhar, mesmo quando dorme, pelas suas tão lindas montanhas.

 

 

O Poulo da Chãe do Ruivo, numa perspectiva mais alargada, ficava, a meio da foto, um pouco à esquerda, por baixo da estrada, antes desta entrar no Pinhal

 

Diz o Ventor que, quando era pequenino haveriam alguns lobos pelas suas montanhas pelo que diziam e pelo que o Ventor via nos sinais que os lobos deixavam, nos seus locais de passagem, bem como nos animais domésticos que matavam para se alimentarem.

Por essas razões, o Ventor só ouvia falar em montarias e na necessidade de matar lobos: "isto não pode ser. Temos de espicaçar os de Soajo e fazer mais uma montaria, senão, um dia destes, os lobos vêm cá comer-nos"! Houve tempos qe diziam que os lobos entravam no lugar de Adrão. O pai do Ventor chegou a vê-los lá, tal como às raposas.

 

O Ventor achava que não seria assim tão grave pois ele e todos os do seu tempo, ainda uns pequenos fedelhos, andavam nas zonas dos lobos e nunca foram ameaçados. Quando o Ventor atravessava a Brusca, rumo ao Fojo do Lobo ou no sentido contrário, os mais velhos metiam-lhe medo, pensavam eles, dizendo-lhe que era uma zona onde as lobas faziam os seus covis para terem os seus lobinhos e por isso, poderiam tornar-se perigosas.

 

Doutra vez, o Ventor e outro, atravessaram a mata do Ramiscal e não imaginam como foi terrível essa pequena mas penosa caminhada do Ventor. Diziam os anciãos: "estes moços são doidos! Os lobos que atacam as rezes na Pedrada ou vão da Brusca ou vêm da mata do Ramiscal. Se uma alcateia de lobos vos apanha lá, podem trocidar-vos. É lá que escondem os filhotes pequeninos e se vos apanham, matam-vos!

 

«Lobinhos pequenos?» - dizia o Ventor.

 

«Quem me dera brincar com eles» - dizia o Ventor para todos. «Se os pais forem fazer uma caçada e eu os ver, nunca direi a ninguém onde estão»!

Assim, de vez em quando, o Ventor sonha com os lobos e os seus filhotes e por isso, ainda hoje diz como gostaria de encontrar lobinhos pequenos, nas suas montanhas lindas e brincar com eles. Mas se isso não acontece na realidade, é sempre possível sonhar. Foi isso que aconteceu ao Ventor uma noite destas. Sonhou!

 

Ele está sempre a ver as fotos das suas montanhas lindas, os trilhos por onde caminhava antigamente e, olhando-as, ainda hoje sente muito bem os perfumes de outrora que permanecem entranhados nas sua narinas. Por isso voltou a sonhar. Sonhou que andava a correr entre os fetos do Poulo da Chãe do Ruivo.

 

Os fetos estavam verdinhos e cheiravam bem como sempre acontece quando o nosso amigo Apolo "esparge" sobre eles, a sua energia. E, para felicidade do Ventor, apareceram-lhe, no meio dos fetos, quatro lobinhos todos brincalhões. O Ventor sentia-se muito feliz a rolar com os lobinhos por entre os fetos mas, ao mesmo tempo que agarrava aqueles belos peluches vivos, ia lançando um olhar de relance em volta e apercebeu-se que estava cercado por grandes lobos um pouco afastados. De repente, vê mais junto de si, dois grandes lobos a apreciarem as suas brincadeiras e os mesmos a falarem, entre si, como se fossem gente.

 

Diz então o lobo para a loba: "tu tens tanta confiança no Ventor que não te preocupas com a hipótese, mesmo que remota, que ele faça mal aos nossos filhotes"?

E a loba respondeu-lhe: "Eu, não só tenho confiança como tenho a certeza que o Ventor não lhe faz mal. Por isso, gostaria que desses instruções aos nossos amigos para se afastarem. Quero que o Ventor se sinta à vontade. Se eu tivesse de confiar os meus filhos a alguém, neste mundo, seria ao Ventor".

"Aprecia a alegria do Ventor. Ele está a cumprir um sonho de toda a sua vida! Lembro-me muito bem de como os meus avós, os meus pais e todos os nossos velhos amigos me falavam do Ventor e como ele sempre pensava ter uma oportunidade destas. Por isso sou eu que lha vou dar. Repara bem na felicidade deles, os nossos filhotes e, sobretudo do Ventor. Neste chão, ele sempre viveu com alegria. Até parece que está no céu"!

 

 

Numa perspectiva mais pormenorizada, ficava à esquerda, na foto, no terço inferior

 

Foi aqui que o sonho acabou. E o Ventor já me tem dito isto várias vezes. Era naquele chão que ele dava uma bucha ao seu cachorrinho que se punha logo a abrir um buraco com aquelas gordas patorrinhas e a enterrava, com o focinho e com as patas. Depois afastava-se observando tudo em volta. À tarde, no regresso, lá ia o Vilabem buscar o seu tesouro escavando o sítio, pegando na bucha e comendo-a. Dava muito que pensar ao Ventor toda aquela organização do seu cachorrinho, sem que a Violeta, a sua mãe, alguma vez o tivesse ensinado. Era o seu instinto em acção! E, quando o Ventor se afastava um pouco daquele local onde o cachorro tinha escondido a bucha, para ver se ele se chateava, o cachorro levantava as orelhas, observava e lá ia apressado levantar o seu tesouro.

 

O Vilabem e o Ventor, só davam alegrias um ao outro. Por isso o Vilabem uivava no meio dos carvalhos da Assureira e nas suas montanhas lindas à aprocura do Ventor quando ele saíu de Adrão, abandonando tudo. O Vilabem morreu com uma vacina dupla e o Ventor ainda hoje chora por ele. O Ventor diz que, se fosse possível o Vilabem viver ainda hoje, acredita que ainda hoje continuaria a uivar e a ladrar por ele, tal como ele, ainda hoje, tantos anos depois, chora pelo cão que deixou para trás.

 

Mas o sonho levou o Ventor a brincar com os lobinhos, no mesmo sítio que brincava com o seu cachorrinho e, mais tarde, o seu belo cão. Era naquele poulo da Chãe do Ruivo que, com o cinto, fazia uma funda para fazer a pedra rolar por entre os fetos a fazer um barulho tal, um róooooom que ainda hoje se recorda, como se o tivesse presente no ouvido.

 

Este foi um sonho lindo que faz parte das belezas e das tristezas do Ventor. Este local é um local das suas montanhas lindas que nunca mais foi pisado pelo Ventor, apenas e só, porque, um pouco mais acima passa hoje a estrada. Não sei se alguma vez voltará a pisar o Poulo da Chãe do Ruivo! Mas, certamente, voltará a passar pelos seus sonhos!



O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia


publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 22:28