Olá, amigos!

 

O Ventor estava para aqui a pensar, a pensar, e eu perguntei-lhe porque pensava tanto e, saíu-se com esta:

 - «Olha Quico, já passaram as colheitas dos milhos, já se realizaram as esfolhadas, e as vindimas e já confraternizamos com o nosso amigo S. Martinho mais aquele velho amigo meu - o Baco - com bons vinhos e boa água-pé»!

 

«Já observamos as folhas a amarelecer, a envermelhar, a acastanhar e, assistimos agora, ao streep-tease das árvores que começam a revelar a sua nudez para nós. E sentem-se felizes»!

 

«Agora observamos, também, o velho Outono a fazer as suas malas para partir à procura de outros destinos e o seu irmão Inverno a fazer as malas para caminhar para este. Um prepara-se para pôr termo à sua caminhada e o outro vai iniciar uma nova, fechando 2008 e abrindo 2009. E nós, tal como sempre, continuamos a tentar caminhar em todas as plataformas dos quatro magníficos ocupantes das nossas belas estações que, com mais ou menos aparatos, nos vão trazendo o que têm para nos dar, os bons ou os maus momentos com que vão animando a Esfera».

 

«A nossa vida, a vida de todos nós, é um conjunto de caminhadas num labirinto onde, a cada esquina, há gadanhas e guilhotinas prontas a funcionar; a cortar-nos o corpo e até a alma».

 

 

Este é um girassol que existe, neste momento, na minha rua. Ele resiste ao Outono e irá resistir, certamente, a parte do Inverno, se a mão do homem não interferir

 

Neste rang-rang de conversas, o Ventor contou-me que esteve parado à espera da minha dona, numa rua de Lisboa, com árvores, e que estas já amareladas, contorcendo-se com os sopros dos ventos, se iam despindo, fazendo um belo streep tease para animar o Ventor, enquanto os manos, Outono e Inverno, iam discutindo, um com o outro, os seus belos e apressados preparativos de saída e de entrada.

 

O velho Outono ia discutindo com o seu irmão que queria bem servir o Ventor antes de partir e o seu irmão Inverno discutia a pressa de chegar, dizendo ao seu irmão Outono que terminaria tudo o que ele deixasse por fazer.

 

Entretanto, o Ventor não ligava nada às birras dos dois e pensava como teve tanta fezada com o começo deste ano de 2008 e, afinal, tudo tem corrido tão mal para ele e para a minha dona!

A minha dona, desde, 25 de Abril de 2008 que quase nem consegue andar. Já fez, este ano, duas operações à coluna e ainda não consegue ver-se livre das peias do nervo ciático entrincheirado, algures, naquele corpo martirizado! Operações, fisioterapias, lutas terríveis com a A. Reumatóide e agora, mais este desafio com que o destino a brindou. Já lá vão mais oito meses de tortura sobre tantos outros sacrifícios! E, o pior, é que as perspectivas continuam muito más.

 

E eu, aqui, cismando, vendo também as árvores a desfolharem-se, observo o Ventor e a minha dona a carregarem com as suas próprias mazelas e ainda com as mazelas, um do outro. Porque será o Senhor da Esfera tão mauzinho?

 

A nossa sorte é que a minha dona é uma lutadora. Ela utiliza todas as forças que lhe sobram para lutar contra os malefícios que a perseguem, mantendo sempre vivo o sorriso que o Ventor lhe encontrou quando a conheceu.

 

Quando o Ventor decidiu fazer a sua Grande Caminhada pelo nosso Planeta Azul, o Senhor da Esfera disse-lhe que só poderia optar uma vez, mas o Ventor manteve a sua! Ele acha que não há nada mais belo em toda a Esfera do que caminhar no Planeta Azul!

Por isso, enquanto puder, o Ventor manterá o pé firme pelos trilhos da sua Grande Caminhada! E eu, enquanto puder, estarei sempre a seu lado!

 

O girassol que deixei em cima, foi um vizinho nosso que o arrancou, algures por aí, em redor e transplantou-o para aqui, na nossa rua. Pegou, cresceu mais um pouco e floriu para nós! O Ventor já me contou que, quando conheceu a minha dona, muitos anos atrás, viu-a com um vestido amarelo e lhe chamou: primeiro, de malmequer amarelo  e, depois, também de "Girassol"! Por isso, quando eu olho do meu miradouro e vejo ali o girassol, vestido no seu lindo amarelo, dê sol, faça frio, chuva ou granizo, está sempre sorrindo para as intempéries, porque as flores sorriem, lembram-se(?), eu penso como o Ventor tinha razão quando baptizou a minha dona de malmequer amarelo ou de "Girassol".

 

Tal como este girassol sobrevive aos frios, chuvas e saraivadas a minha dona sobrevive às intempérires da sua vida.

Há quem julgue que só há girassóis na Primavera e Verão, este será a prova que eles podem resistir no Outono e no Inverno, porque estes últimos dias de Outono têm sido mesmo de Inverno. A foto do girassol é de 2 de Dezembro, mas ele hoje está ainda mais bonito. Quando começar o Inverno, se, entretanto, não for danificado pela malvadez humana, voltarei a colocá-lo aqui.

 

 



O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia


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música: Nabuco de Verdi
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publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 23:43