Hoje apetece-me prestar homenagem a todas as mulheres e, para isso, começo com um texto que um dia enjorquei, sobre uma menina:

A Menina da Garrafinha

Recordo-me que, há algum tempo, ia por aqui uma grande confusão na nossa rua.

 

Sempre que eu estava à janela, num dos meus miradouros, via malta, na rua, de cabeça no ar! Mas apercebia-me que era mais quando passavam as camionetas do gás. As camionetas que transportam aquelas botijas da Galp, pesadas, brutas e velhas, péssimas.

Eu, só via, de vez em quando, um braço levantar-se e apontar para a rua e, de repente, a camioneta abranda, as garrafas ás vezes até batiam umas nas outras e ouvia essa rapaziada perguntar aos condutores das camionetas se já levavam bilhas novas. E a resposta era. “não, que raio”!

 

A minha curiosidade era muito grande e, à medida que via os meus amigos correrem apressados a atravessar a rua, os passarinhos saltitando e as gaivotas descerem sobre o passeio a ver se arranjavam qualquer coisa para mitigar a fome, só ouvia falar em plumas.

Depois olhava as plumas das gaivotas, dos pardais, dos pintassilgos, dos pombos e até dos patos (novos vizinhos que tínhamos por cá) que de vez em quando esvoaçam ali à minha frente e penso que motivações poderão ter, para estes gajos, as plumas dessa bicharada minha amiga.

À medida que o tempo passava eu ficava ainda mais curioso e cada vez mais me aprumava a observar todos os movimentos que por aqui há e mais ainda quando os distribuidores do gás andam por aqui.

 

Uma noite, olhei a televisão e vi o Ventor muito curioso a ver uma publicidade, coisa que ele normalmente não faz, pelo menos, com tanta atenção sem deixar passar pitada. Esmerei-me também e vi uma garotona com perna de pernalta a transportar uma bilha alaranjada ou assim e, vejam só: punha os homens todos regalados, de cabeça perdida. Depois percebi!

Afinal, a malta estava toda à espera que viessem as botijas plumas para ver se a menina da Galp as levava às casas! Sim, porque enquanto elas continuarem assim tão pesadas não há "gata" que se aguente com elas!

Vocês não digam nada, mas recordo-me da minha dona mandar vir o gás e o Ventor ir á porta recebê-lo, coisa que nunca fazia!

 

Eu, que sou um cusca, fintei o Ventor que está habituado a ver-me fugir dos gajos do gás, por isso sentia-se à vontade. Olhei-o de soslaio e perguntei-lhe se também estava à espera da “menina pluma”. Ele disse logo: “o que te leva a supor isso”? Eu disse-lhe que ela parecia uma beldade e talvez ele quisesse observá-la bem ao vivo. Sabem a resposta do Ventor?

“És um parvo, pá! Aquilo presta para alguma coisa? Nem sequer ... bla, bla, bla ...Ai se vocês ouvissem”!

Irra que este nunca está stisfeito!

 

Mas o tio da minha dona esteve na reunião da Galp que escolheu a menina pluma e disse ao Ventor, e eu ouvi, que ela é mesmo uma beldade!

Fiquei com o texto preso aqui num buraquinho do computador, só para chatear o Ventor um dia. Hoje ouvi-o dizer à minha dona que é o Dia Internacional das Mulheres e eu lembrei-me de colocar aqui este texto que tinha encostado sobre a Menina da Garrafinha e com ele prestar a minha homenagem à “menina da garrafinha” e a todas as mulheres deste mundo.

Nós também temos a nossa menina da garrafinha! Ela guia a camioneta, e os dois parceiros de trabalho levam as bilhas às casas dos clientes enquanto ela fica esperando a tentar ler os seus livros. Mas mesmo guiar camionetas em cidades incómodas como as nossas, é terrível! Para esta minha amiga, as melhores saudações do mundo!

 

Vocês já viram bem a vida das mulheres destes dois últimos séculos?

Trabalham como os homens, tanto ou mais, cumprindo horários terríveis, fundamentalmente aquelas que têm os filhos para tratar, deixando-os nos infantários, ou creches, ou escolas, ou abandonando-os nas ruas à sua sorte. Vivem sempre em sobressalto permanente, fundamentalmente aquelas que têm de os deixar ao Deus dará como acontecia com o Ventor quando era pequenino. Além desse sobressalto permanente, têm de ir a correr para casa fazer a sopa e quantas vezes sem saber como!

 

As mulheres dos Séc. XX e XXI são, de facto umas heroínas!

Bem hajam mulheres do mundo! Mesmo que alguém invente como tornar mais leve as vossas tarefas, como bilhas plumas, e outras coisas, vocês merecem a solidariedade de todos os homens e não só num dia, mas em todos!



O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia


tags:
publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 11:33