Hoje vou falar-vos da vaca-loura. Agora o Ventor lembrou-se desta!

 

Diz o Ventor que é, provavelmente, o maior escaravelho que temos e vou-vos dizer porque vos falo nesta espécie. Há mais ou menos dois ou três anos, o Ventor viu a última vaca-loura, no Alentejo, junto a uma barragem voando pelas azinheiras. Ele pensa que foi a primeira e única que viu desde 1960 e provavelmente já sebe porquê. Ela está a desaparecer e, de qualquer modo, não haverão muitas, por aí!

 

Quando o Ventor era miúdo, havia quem, lá pelo Norte, usasse os cornos do macho desta espécie, presos num fio e pendurados no pescoço, para espantar as bruxas e não se admirem porque as há. Uma vez pensou em matar um bicharoco destes para lhe tirar os cornos (mandíbulas grandes), os quais só o macho é que é seu portador e são as suas armas na época do acasalamento para lutar com outros machos. Um deles tem de sair fora da árvore. Mas desistiu! Achava que era um crime matar um bicho destes para lhe tirar os cornos para tal futilidade. Quando o viram com a vaca-loura numa caixinha pediram-lha e até lha quiseram tirar para tal propósito, mas ninguém fazia farinha dele e quando ele entendia que não, era não mesmo! Levou o bicho para o local onde o apanhou – os carvalhos do ti Valente. A gente de Adrão sabe bem do que o Ventor fala.

 

 

 

Lucanus cervus, macho e lucanus cervus, fêmea (vacas.louras, macho (esq.) e fêmea (dir.)

 

Cheguou lá, abriu a caixa e disse-lhe: «vai-te embora que ninguém te vai despedaçar para te tirar a cornadura. A partir daqui, estás por tua conta outra vez e não acredites em ninguém». O bicho deu umas passadas e levantou voo pelos carvalhos dentro. Nunca mais o viu. Com certeza que lhe terá agradecido por o usar durante umas horas para fazer pirraça a alguém e depois libertou-o.

Mas enquanto andou a passear a vaca-loura aprendeu que o bicho tinha medo. Passou todo esse tempo horrorizado e utilizava um som incrível! Não há bicho nenhum que não tenha medo até o mais insignificante de todos, diz o Ventor. Ainda hoje de manhã viu um cágado pequenino chegar à superfície da água na Lagoa Azul e ao encarar com ele mergulhou pela água dentro como se pensasse que o mundo fosse desabar sobre ele.

 

Hoje de manhã, deu-lhe para procurar uma vaca-loura na Net, pois nunca chegou a fotografar nenhuma e gostava de presentear aqueles que não conhecem o senhor e a senhora desta espécie "lucanus cervus" e disse-me: «Quico vou à procura de uma vaca-loura»! Ele ás vezes parece maluco e foi. Eu disse cá para mim. "agora é que ele vai e não volta se só pensa voltar quando encontrar a vaca-loura"! Foi, mas não foi longe. Colocou a palavra vaca-loura na procura e apareceu-lhe logo o senhor «lucanus» no Site dos nossos amigos galegos, porque eles falam-nos dos seus rios com amor e grande dedicação e como os rios deles são iguais aos nossos com bosques de carvalhos nas margens, foi o sítio ideal para encontrar a vaca-loura e foi presenteado com uma amiga! Porém, teve de tirar os lucanus de outro lado. Os galegos só querem os lucanos para eles!

 

 

 

Lucanus cervus female, uma vaca-loura, fêmea, tirada da wikipédia

                                                                  

Como eles são defensores dos seus rios, dos seus caminhos, dos seus bichos e nós devemos ser dos nossos e como os bichos que eles vêm pelos seus rios são os mesmos que nós vemos pelos nossos rios do Minho e até aqui na região de Lisboa, pensou em roubar-lhes a vaca-loura! Eles saberiam que era por uma boa causa, porque é através deles que ficamos a saber que a vaca-loura corre perigo de extinção ou, pelo menos, está ameaçada e parece que já está a ser protegida em zonas de Ourense. Espero que sim.

 

 
 

 

 Larvas e lucanus cervus, macgo, tirado da wikipédia

 

Porquê? Perguntarão vocês! Que interessa ao Ventor, a vaca-loura? E eu direi: «por todas as razões que a maioria de vós, que andais por aqui, já sabem e também porque, como podem ver, é um bicho lindo! E, por essas e por outras, vale a pena deixar os bichos em paz! Que lutam com as bruxas de outra maneira!

 

 



O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia


publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 00:02