Diz-me o Ventor:

 

«Sabes Quico, desde 2004 que procuro alguns amigos e digo-te que é difícil dar com alguns porque estão a desaparecer. Estes são amigos de que eu me lembro de vez em quando e não porque lhe tivesse algum amor ou amizade nos meus tempos de criança!

 

Fui treinado para matar bichos. Sim, fui mesmo!

 

E hoje, gostaria tanto de incutir na miudagem o amor pelos bichos. Como já te tenho dito, eles e nós, somos todos companheiros de caminhada e devemos repartir, por todos, este Planeta Azul que, cada vez mais, nos convencemos que foi feito só para os humanos. Mas não foi, não!

 

Queiramos ou não, todos os bichinhos que existem no Planeta, são nossos companheiros de caminhada para a eternidade e se não fizermos por isso, a eternidade da espécie humana, será muito limitada. Findará logo ao virar da esquina. A eternidade durará o que o planeta durar. Findando este, finda tudo e cada espécie que desapareça será um passo para esse fim.

 

Mas dizia eu que fui ensinado a matar bichos. Toda a gente ao meu redor, treinava isso. Matar bichos! Matávamos cobras e lagartos. Ratos e ratazanas. Coelhos e perdizes. Raposas e lobos. Bichos da peçonha e moscas. Formigas e grilos. Rolas e pombos. Águias e milhafres. Texugos e bufos. Melros e lavandiscas. Toupeiras e ralos. Enfim, tudo!

 

Depois perdi os bichos. Exceptuando o tempo que passei por África, o bicho que me habituei a matar foram as traças! Traças das roupas, traças das alcatifas. Sempre que numa escapadela por montes e vales, via um bicho, defendia-o. Eles passaram a caminhar a meu lado! E mais ainda quando te incentivo a matar uma mosca e me dizes: «mata-a tu»!

 

Eu sei que tu não matas qualquer bicho! Chamas a gente para decidirmos e gostas de nos ver abrir a janela para as colocar lá fora, em liberdade. Lembras-te de quando salvei o meu amigo besouro que ia morrendo afogado entre os tronquinhos de bambu? A luta pela vida dele, salvá-lo, ou uma ferradela em mim, era a questão. Ainda hoje não percebo porque só miavas à minha volta e como ficaste contente por eu conseguir salvá-lo.

 

A partir de certa altura comecei a ter saudades dos bichos e hoje qualquer cantinho que me possa indiciar que há por lá bichos, desde borboletas ao mais esquisito de todos, eu avanço para lá de máquina pronta a disparar. Alguns não apanho, porque eles não acreditam em mim e fazem muito bem. Os bichos não devem confiar em ninguém! Às vezes apetecia-me ensinar os bichos a saberem-se defender, mas os parvos vêm comer às nossas mãos e depois apanham-nos. É assim que desaparecem patos, galinhas d’água e muitos outros. Até coelhos!

 

Há quem lhe dê couves e outros comeres pelo prazer de os ver resistir à sua tormenta do dia a dia e há quem se aproveite disso.

 

 

Este lagarto é um representante de velhos amigos de outros tempos, num outro mundo

 

Mas tu não imaginas como eu fiquei contente ao encontrar este representante de velhos amigos. Ele fugiu ao ver-me, mas depois, cheio de curiosidade veio espreitar-me e eu, de máquina apontada, disparei! Se fosse alguém que lhe quisesse mal e em vez da máquina fosse uma arma, tê-lo-ia morto. Mas ele nem imagina a alegria que senti ao vê-lo! Eu já o procurava há muito! Sempre que caminhava por determinados sítios, sentia que deveria haver por ali um lagarto. Era assim que pensava nesse momento. A manhã estava linda para ver um lagarto ao sol e desviei-me para passar lá. De repente ele fugiu desorientado para a sua toca. Eu apontei a máquina e só vi o buraco, mas de repente, a sua curiosidade levou-o a espreitar-me e disparei três vezes. A primeira ficou como o vês e as outras duas, nem pó, porque o barulho da máquina assustou-o e ele recolheu-se no interior da sua mansão. Só voltei a passar lá uma vez mas desisti para não incomodar o seu direito ao prazer e à paz enquanto aprecia a passagem do nosso amigo Apolo».

 

Vamos lá a ver meus amigos. Façam como diz o Ventor. Ensinem os vossos pequeninos e todos que vos rodeiam a deixarem os bichos em paz! Não os ensinem a matar como ensinaram o Ventor.

 



O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia


música: Let Him Live
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publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 00:47