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Quico «Imperador»

Olá, Maralhal!

 

Pois é! Eu sou um gato pensador mesmo. Viro-me e reviro-me na cama do Ventor e chego sempre à mesma conclusão: «homem sofre»!

Ora se homem sofre, gato, parceiro do homem, nesta passagem terrena, também sofre. Eu sei como custa viver neste mundo inglório. Há uma espécie de ar carregado nesta atmosfera que respiramos. Quando coloco a cabeça fora da janela para ver os meus amigos em cima de telhados zincados ou telhados mesmo de telhas, abarracados sobre paredes distorcidas em madeira, pedra ou chapas, eu vejo uma espécie de pavor que paira nos ares.

 

Os meus  amigos passam fome, dão-lhes cacetada quando descem dos telhados, alguns são escaldados com água a ferver e até o meu amigo "moisés", sofreu muito para conseguir curar as queimaduras que um homem negro lhe fez ao despejar-lhe uma frigideira de azeite ou óleo a ferver em cima. O "moisés" sofreu imenso sobre os telhados e resistiu, mas nunca ficou em condições  de prosseguir a sua caminhada neste mundo ingrato para as pessoas e para os animais.

 

O "moisés" assustou-se muito e perdeu capacidade para lutar pela sobrevivência ao perder as capacidades de comando que tinha conseguido, como líder, no meio do seu Maralhal. O "moisés" era um valente gato preto, um líder, que foi queimado por um homem de cor, por mau íntimo ou, sei lá, por ter horror aos animais que lhe fzem concorrência na luta pela sobrevivência do dia a dia. Nessa luta inglória para o "moisés" pois os animais não são tão manhosos como os homens, estes, na sua maioria são vingativos, injustos, e desleais, sem perceberem muitas vezes os princípios da solidariedade que deveria existir entre todos os seres vivos. Neste mundo cruel, o "moisés" foi vencido e morreu precossemente.

 

Eu, que serei sempre um gato felizardo ao lado do Ventor, já tive também os meus tempos de infortúnio. Abandonaram-me, quando ainda precisava de mamar, sobre os telhados de que vos falo. Queria leite da minha mãe e não tinha, queria comer e não tinha e, quando tinha, não podia!

 

Sempre que tentava abocanhar qualquer coisa que vinha das janelas dos prédios em frente, os mais velhos vinham e tiravam-ma. Quando todos fugiam eu agarrava-me com as unhas a tudo que me era permitido: paredes de cimento, telhas, madeiras. Muitas vezes, no ímpeto da fuga, caía de costas e quase não tinha forças para me virar. Gritava a todo o Mundo a pedir ajuda, aos meus companheiros de infortúnio e até aos eventuais seres que já foram mas que poderão ter ficado para trás para me levarem com eles para o outro mundo que este, de certeza, não seria o meu.

 

Os rapazes, maus como aqueles que os fizeram, tentaram matar-me à pedrada, com flaubers ou à fisgada. Eu fugia sobre os telhados e escondia-me como podia, mas as forças começaram a faltar e acabei por me deixar apanahar. Dois rapazes, levaram-me para dar à mãe de um deles, mas ela não me quis.

Levaram-me para me matar, a mim um gatinho pequenino, esfomeado, já com olhos azuis vidrados, como vidros baços. Em boa hora apareceu a "minha madrinha" que ralhou com os rapazes da idade dela e eles disseram que me iam matar porque não queriam ali gatos. Se calhar até me torturariam, mas ela pediu para me levar que ficaria comigo. Os rapazes pensaram e pediram-lhe um euro para ela me levar.

 

Os pais dela tinham e têm uma cadela, a minha amiga Tara e tiveram medo que ela me fizesse mal e não poderiam ficar comigo. Hoje somos grandes amigos. A "minha madrinha" falou com a tia (a minha dona), que ficou comigo mas, com medo que o Ventor não me quisesse, iria dar-me para um colega de Fernão Ferro, que queria um gato para substituir o que alguns dias antes lhe tinha sido atropelado na estrada, à porta de casa.

 

O Ventor chegou, e como tinha um coelho anão, o meu amigo Rafinho, disse logo que não me poderiam ter cá em casa com o coelho. Mas o Ventor gostou logo de mim embora, à primeira impressão, eu me fosse esconder por detrás da aparelhagem. O Ventor e eu começamos a conviver mais e dava-me comer, mas dizia que eu ia ser muito grande e daria cabo do Rafinho num instante. Mas eu estava tão magrinho, esfomeado e sem forças que até tinha medo que fosse o Rafinho a comer-me a mim. Mas o Ventor já não me deixou ir embora.

Prosseguirei a narrativa da minha vida!



O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia


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publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 01:25