Quando o Ventor era miúdo, nunca tinha visto uma coruja mas já ouvia falar delas e, fundamentalmente, quando o seu pio característico colocava a sua aldeia natal de orelhas inclinadas para o som, fossem elas pequeninas, fossem elas grandes pavilhões como as do mister Spock do Star Trek.

 

Depois, as pessoas mais velhas, fossem homens ou mulheres diziam: «ai, não gosto nada de ouvir aquela coruja»! E davam as suas explicações. Fulano estava doente, beltrano estava a morrer, e sicrana a mesma coisa. «Qual deles estava na chamada»?!  

 

Dizia-se, então, que quando algum velho se preparava para prestar contas ao Senhor da Esfera, a coruja aparecia para dar «novas da sua partida». Fosse verdade ou não, diz o Ventor que a coruja piava e logo num ponto da aldeia começavam os choros dos que ficavam por aquele que partia. Mas o Ventor também diz que se recorda dos pios das corujas, sem que alguém tivesse morrido!

 

Para o Ventor esta questão do pio da coruja coincidir com a morte de alguém devia-se apenas e só, a pura coincidência da vida real das pessoas e das corujas que tinham necessidade de comunicarem umas com as outras, cantar ou até, quem sabe, chorar.

 

 

Fosse qual fosse a razão, as pessoas só se preocupavam com o pio da coruja quando alguém estava para morrer, caso contrário, não ligavam importância. Agora que na 5ª feira passada o Ventor ficou muito preocupado com uma coruja, ficou! Eu sei reconhecer as preocupações das pessoas e não é por acaso que, quando isso acontece, eu também fico preocupado e vou dar-lhe uns beijinhos de gato.

 

O Ventor foi ver um familiar ao Hospital Amadora Sintra e quando estavam a cavaquear sobre a vida, uma coruja voou direita à janela do quarto do doente, e logo procurou pousar por ali. O Ventor foi buscar a máquina de fotografar e procurou a coruja que tinha pousado por cima da segunda janela à esquerda daquela. O Ventor todo encantado, aponta a máquina com a coruja pousada a olhar para ele, mas a máquina não disparou!

 

Voltou a tentar mais duas vezes e nada! O Ventor já danado, reviu a máquina, a bateria, tudo, e ao voltar a tentar, nada! A coruja levantou voo e foi pousar lá longe, na esquina da zona Leste do Hospital e ficou a olhar para o mesmo sitio onde o Ventor se encontrava. No dia seguinte, 6ª feira, o Ventor voltou ao Hospital e por razões que não interessam, deixou que as pessoas fossem fazendo a visita, ficando ele para mais tarde

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A verdade é que não estava com vontade de subir e acabou por vir embora sem fazer a visita. Na noite seguinte o amigo e familiar acabou por morrer. A sua morte estava adiada desde Agosto e só, ultimamente, foi cinco dias a casa, regressando ao Hospital de onde só voltou para caminhar para junto do Senhor da Esfera. Na noite que ele morreu, enquanto o Ventor sonhava, eu ouvi uma discussão entre o Ventor e a coruja!

 

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Dizia a coruja ao Ventor que ele já estava tão por baixo que já nem sabia interpretar os sinais! E sabem uma coisa? Aqui o vosso amigo Quico acha que a coruja tinha razão! Mas a verdade é que o nosso amigo Quim partiu deste mundo e a coruja avisou o Ventor que se despedisse dele que não o veria mais!

Avisou-o no Hospital e avisou-o em sonhos. Discutiram muito o Ventor e a coruja e quando o Ventor acordou transpirava e até se sentou na cama e abraçou-se a mim, dizendo-me que também os meus olhos pareciam de coruja. A nossa dona dormia e eu assistia a mais esta batalha do Ventor com as crenças e as supersticões deste mundo.



O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia


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publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 20:08