Olá, Quico!

Já sei que muitos amigos te escrevem e alguns são malcriados e tu não colocas aqui as suas cartas porque tens vergonha, mas espero que não tenhas vergonha de una mosca, mesmo que eu saiba com toda a certeza que o Ventor não gosta de mim. O mundo também é feito pelos contrários e eu sou a contrária do Ventor, mas temos de conviver uns com os outros, mesmo que para isso tenhamos de morrer alguns. Não vou entrar aqui em pormenores sem fim, afinal escrevo-te apenas para te dizer olá! E sabes porquê, Quico? Porque eu andava nos vidros da vossa varanda e vi-te a conversar com uma amiga minha. O Ventor disse-te para a matares e tu deixaste-a fugir.

 

Gostei de ver-te encalacrado com a minha amiga debaixo da tua pata sem saberes que lhe fazer e mesmo quando o Ventor te disse para a matares, olhaste-o e largaste-a logo, dizendo-lhe: “mata-a tu”! Por isso estou aqui para te ajudar nos dilemas com que o Ventor te vai enchendo esse cérebro. Pelo menos na questão de saberes se na tal Manjedoura haveria algum gato. Sabes que os nossos destinos já nascem traçados e partilhamos, tal como todos os seres, as nossas histórias que correm desde os primórdios dos tempos. Como sabes, nós somos animais que habitamos em todos os cantos do mundo, desde os mais quentes aos mais gelados. Posso mesmo dizer-te que somos assíduas das taígas siberianas e desenvolvemo-nos em redor dos ciclos polares pelo que, como poderás imaginar a nossa espécie esteve presente na Manjedoura de Belém.

 

Dez,02 078.jpg 

Mosca

 

Posso garantir-te que os gatos eram animais gratos nas coberturas de colmo das casas de Belém e que até José e Maria davam sobras aos gatinhos que passavam à sua porta e roçavam o lombo pelas suas pernas. Os meus antepassados chegaram a comer das pequenas partículas que sobravam nas lajes que lhes serviam de pratos.

Depois, como sabes, o Menino nasceu no tempo frio e haviam gatos que dormiam nesse local abrigados do mau tempo. Eles próprios, seguiam Maria e José nessa bela terra de Belém e tal como o Ventor te dá palmadinhas no lombo também Maria dava nos gatinhos. José já era mais sisudo e não tinha tantas oportunidades, porque era carpinteiro e lidava com madeiras e os gatos receavam aproximar-se dele! Mas Maria tinha de preparar o comer para ela e José e sempre arranjava algumas sobras para os gatos.

 

Sabes que, mesmo onde há fome há sempre umas sobrinhas para os gatos, para os cães e para as moscas? Tu próprio já passaste por isso, Quico! Os grandes roubavam-te o quinhão que apanhavas mas tu chegavas a lamber as telhas ou as chapas onde os pedacinhos caíam, e mesmo assim, também chegava para os meus ascendentes. Portanto, não fiques a cismar se haveria ou não, algum gato na noite da Luz, em Belém. Podes crer que havia e se não acreditares em mim, pergunta ao Ventor. Ele não te conta tudo porque o tempo é curto e há coisas que sempre escapam. Como o Ventor não gosta de nós, as moscas e portanto não gosta de mim, não te vou dizer o meu nome e assino apenas com muita amizade,

 

Mosca,



O Quico também sonhou ao lado do Ventor. A vida solitária e nefasta dos seus amigos que observava do seu Miradouro, foi sempre, a sua grande arrelia


tags:
publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 23:16